A única imagem atribuída a Monge Chico anos depois foi identificada como do mítico monge João Maria, curandeiro que viveu entre Paraná e Santa Catarina, entre 1886 e 1905, anos depois do conflito no Taquari Dominío Público Dono de um hotel na vila de Encantado (RS), em maio de 1902 João Ferri se recuperava de ferimentos sofridos em um ataque que lhe custara um naco da orelha direita e cortes pelo corpo. Ele havia perdido dois amigos e outros três estavam feridos, um deles gravemente. Ainda com dores, recebeu um embrulho com um "presente" e um bilhete: "Para substituir a que perdeste". A mutilação vinha de um homem abatido a tiros de fuzil pela Brigada Militar no dia anterior, quase no final da Guerra de Pinheirinho, uma represália que virou massacre de pelo menos 28 pessoas no Vale do Alto Taquari, no sopé da Serra Gaúcha. A brincadeira macabra se tornou lendária na comunidade e ilustra um confronto alimentado por medo, preconceito religioso e impiedosa reação policial. Apesar de descendentes dos envolvidos de ambos os lados ainda viverem na região, o episódio caiu no esquecimento após 124 anos, citado quase só em trabalhos historiográficos. Grande parte do registro nasceu do livro Os Monges de Pinheirinho, de 1975, do historiador local Gino Ferri (1922-2016). A partir de meados dos anos 1960 ele entrevistou alguns dos envelhecidos participantes. Quase todos entre os vencedores, como o autor lamentaria décadas depois da publicação. "Naquela época eu sabia muito pouco sobre o outro lado", comentou Ferri no início dos anos 2000. Tudo começou com a presença incômoda e provocativa de miseráveis que abriram roçados e ergueram palhoças em uma terra sem dono às margens do rio Taquari, hoje dentro dos limites de Roca Sales. O grupo contava com uns 60 desgarrados, incluídas mulheres e crianças. Eles praticavam rezas e curandeirismo — recorrente em comunidades sem acesso mínimo a médicos e remédios. No ápice, reuniram duas centenas de pessoas das redondezas, muitas delas agricultores, além de viajantes de passagem. Monge furioso O líder era um certo João Francisco Maria de Jesus, um agressivo curandeiro andarilho que pregava uma guerra santa e profetizava um futuro menos miserável aos que o cercavam. Ele falava até na ressurreição dos que defenderiam sua visão messiânica do cristianismo. Como em outros episódios da época, foi morto à espera de um apoio que nunca chegou. Acabou em uma cova rasa à beira de uma estrada perto de onde hoje fica um campo de futebol na cidade de Muçum. Por capricho vingativo da polícia, foi jogado de costas e com os tornozelos e pés de fora. Para que seus restos expostos não fossem alvo de animais carniceiros, foram cobertos com paus e pedras por sete seguidores aprisionados que serviram de coveiros. "Assim não há de voltar nunca mais", diziam os curiosos. De origem desconhecida e sem registros fotográficos confirmados, ele teria razões para odiar autoridades em geral e colonos em particular. Nove anos antes havia escapado de um linchamento em um acampamento em Colônia Bastos (hoje parte de Marques de Souza), no Rio Forqueta. Cinco foram mortos na noite de Ano Novo de 1893. Na fuga de canoa, foi conduzido pelo mateiro João Enéias, que vivia em uma cabana à beira do Taquari, a 60 quilômetros de distância. Atento, ali por 1900 Enéias ajudaria o monge a se instalar em Pinheirinho, onde este também passaria a ser chamado de São João Maria — um nome genérico, adotado por personagens que apareceram em diferentes épocas, na Revolta dos Muckers (1873-1874), em Canudos (1896-1897), na Guerra do Contestado (1912-1916) e no Massacre dos Barbudos, em Soledade (1938). Os observadores mais atentos relataram que Enéias ajudava em milagres de pescador. Chamado de apóstolo, pegava bagres e pintados de antemão e os amarrava em uma linhada oculta submersa. De acordo com o que Gino Ferri ouviu de testemunhas, depois o pregador reunia os fiéis e anunciava que Deus mandaria uma farta pescaria. Daí puxava a linha colocada. O amigo mateiro também fingiria transes para ser curado com uma reza ou benzedura. Era um jeito fácil de arrecadar donativos, já que a vida era precária. Já apelidados de monges, os discípulos de vez quando cometiam pequenos furtos de ferramentas e mantimentos. Eles eram caboclos e ex-escravizados que antes de serem expulsos das terras vendidas aos colonos se dedicavam à colheita de erva-mate nas bordas do Sertão dos Bugres, como era chamada a Serra Gaúcha. Historiador local, Gino Ferri (1922-2016) resgatou a história e depois reviu sua abordagem Arquivo pessoal O mais provável é que João Maria fosse um destes desalojados, principalmente após as matanças e perseguições da Revolução Federalista (1893-1895). O episódio atraiu a professora de história do ensino médio Mircele Giaretta em sua graduação na Universidade do Alto Taquari (Univates), em Lajeado, distante 115 quilômetros de Porto Alegre. Para ela, o conflito desenrolado no caminho que pega todos os dias pela RS-129, entre sua casa, em Muçum, e o trabalho, em Encantado, foi rascunhado em boa parte pela Lei de Terras de 1850, que dificultou a legalização fundiária por parte de posseiros tradicionais. O resultado abriu caminho para consolidação de latifúndios ou de projetos de colonização. Ela completa: "O governo acabou contribuindo para que essas populações não tivessem para onde ir". O confronto Diante dos relatos conflitantes e da falta de policiais em Encantado, onde viviam cerca de 300 famílias, dois subdelegados, um sargento e mais nove voluntários foram tirar satisfações dos suspeitos, seguindo as ordens do subchefe regional da polícia, coronel Ramiro de Oliveira. Com a chegada do inverno e as cheias do rio, corria o boato que mercados e pequenos comércios em áreas afastadas seriam saqueados — o que nunca ocorreu. O que seria um alerta virou luta desesperada. Na manhã de 4 de maio, a comitiva cruzou o rio até o acampamento. Monge Chico saiu de sua barraca com uma garrucha de dois canos e um facão na cintura para encarar o subdelegado Napoleão Maiolli, de 37 anos, um veterano duro perseguido durante a Federalista. Após uma troca áspera de palavras, foi dada voz de prisão. Maiolli pensava que o local estava quase vazio, pois fora informado que o líder mandara buscar armas para iniciar a sua reduzida de guerra santa — o milagreiro charlatão também queria evitar um ataque como o vivenciado em Linha Bastos. Antes de apontar a garrucha para Maiolli, Monge Chico rogou: "De hoje em diante queremos matar e roubar. E vamos começar já. Tu serás o primeiro". O tiro só não abriu o peito do subdelegado por ação do sargento Vispo, que desviou a arma com um golpe de sabre. Do mato saíram dúzias de asseclas armados de porretes, adagas e algumas espingardas. "Matai os demônios", gritou o monge (os sobreviventes diziam que ele falava assim mesmo). Como algumas armas da patrulha falharam, em vez de conter a multidão foi criada uma batalha na proporção de 3 contra 1. O resultado foram dois colonos mortos (o caixeiro viajante Eduardo Satler, de 30 anos, e o fabricante de bebidas João Lucca, de 28 anos), assim como dois monges, além de feridos de ambos os lados. Napoleão Maiolli, subdelegado, escapou ileso: alvo do primeiro tiro Reprodução/Arquivo pessoal Um dos atingidos foi o irmão de João Lucca, o subdelegado Guerino. Cercado por três e esfaqueado, foi dado como morto. Caído na mata, de tão ensanguentado seu pretenso matador errou o golpe final sem saber. A lâmina da adaga foi barrada por um botão de ouro no colarinho. Guerino só voltaria para casa na noite seguinte, após se arrastar em busca de ajuda. Já o ferreiro Pedro Mottin, de 23 anos, levou um golpe de facão no rosto que lhe rendeu uma cicatriz da orelha ao queixo. Pelo resto da vida ele fez daquela data seu feriado pessoal, afirmando que havia renascido. Reação e perseguição Com os sobreviventes e os corpos dos abatidos retirados no dia seguinte, as autoridades em Porto Alegre foram alertadas. O presidente do Estado (como os governadores eram chamados na época), Borges de Medeiros (1863–1961), caudilho que ficou 25 anos no poder (1898-1908 e 1913-1928), enviou um barco com 100 policiais sob o comando do major Juvêncio Maximiliano Lemos. Conforme relatório apresentado por Medeiros à assembleia provincial, a missão era simples: "Liquidar com os fanáticos e fazer voltar a paz à região". A fé de Monge Chico foi sua sentença. Em vez de fugir, se instalou em uma gruta elevada a poucos quilômetros dali, esperando ajuda e abastecido de comida. Com ele estavam cerca de 70 pessoas, mas as armas e munições eram poucas. A seu favor, o terreno, o frio e a lama criada pelas chuvas. O ataque final veio em 22 de maio, após dias de cerco. Com o tempo firme, a polícia saiu de sua base, a uns 500 metros de distância da gruta. Alguns fugiram, mas um núcleo mais aguerrido ficou ao lado do chefe. Integrantes da patrulha atacados pelos monges; entre eles os feridos João Ferri, primeiro à esquerda, sentado, à frente de Pedro Mottim, em pé Reprodução/Os Monges de Pinheirinho Dos 100 brigadianos, 60 subiram o morro atirando divididos em duas colunas. Ao encontrarem uma cabana, a tropa do tenente Juvenal Joaquim Teixeira abriu fogo contra as paredes finas de madeira. Sete do bando saíram sem resistência e aparentando desnutrição (na imagem). No interior, João Francisco Maria de Jesus foi encontrado morto em uma cama ao lado de outros corpos. Foram enterrados 22 monges na mata, incluindo a última vítima, Cananea, alvejada pelas costas. Ela era a esposa de João Enéias, que desaparecera. Sob a desculpa de buscar reforços, ele fugiu para a localidade de Arvorezinha, distante 50 quilômetros, onde se instalaria. Por ironia, anos depois o hoteleiro ferido João Ferri muda para o mesmo lugar, o que cria uma aberta inimizade até a morte do antigo mateiro. Quatro outros fugitivos do bando foram localizados nas estradas da região e abatidos em diferentes circunstâncias. Pelo menos dez adultos e crianças ficaram escondidos nas matas por dias, passando privações enquanto esperavam a retirada das tropas. Entre eles estava Manuel Lisboa, de apenas 12 anos. Filho de Luiz Lisboa, que trabalhava entregando roupas para um caixeiro, ele frequentava o acampamento com o pai, que era chamado de apóstolo. Manuel e o pai tiveram que comer o couro de arreios do cavalo cozido para enganar a fome naqueles dias. Tudo para preservar a montaria, um instrumento de trabalho essencial. Sete dos integrantes do bando aprisionados pela polícia no ataque final: enterraram o líder em cova rasa e com os pés para fora Domínio Público Já os soldados foram elogiados pelo comando na volta à capital. Nos registros oficiais consta que fizeram 1.560 disparos de fuzil. Para cada revoltoso eliminado foram dados 70 tiros. O que dá uma dimensão da reação. Já os sobreviventes aos poucos se espalharam discretamente pela região, deixando o passado para trás. Adulto, Manuel Lisboa se instalou em Encantado após andanças. Ele viveu na pobreza e transmitiu sua história aos filhos que teve em idade avançada. Um deles, Olímpio, de 74 anos, guarda a memória da penúria relatada pelo pai. Ele é o único entre os descendentes que fala abertamente sobre o massacre. Olímpio Lisboa, 74 anos, único descendente a falar André Vargas Lei de Terras e preconceitos Para os colonizadores, a Guerra de Pinheirinho se mostrou um ato de resistência das forças da ordem. Mas não é o que pensa o professor Luís Fernando Laroque, também da Univates. Para ele, a religião teve um peso enorme, mas pouco percebido. Em uma sociedade extremamente católica, o messianismo popular surgido com o fim do Império era visto como uma ameaça à transição de poder, já que a figura ungida de D. Pedro 2º havia saído de cena, criando um vazio no imaginário social. Algo também visto em outros movimentos, como Canudos. "Me parece que esse foi um forte elemento, pois eles [os monges] não se enquadravam", reflete. Na dissertação Monges de Pinheirinho – A outra face (2010), Maria Lisane Machado ofereceu uma explicação direta e essencial, baseada em parte nos relatos de sua avó. "Não eram perigosos, eles na verdade eram falsários, que se diziam poderosos curadores de doenças que dificilmente seriam curadas, dada a dificuldade da medicina na época". Olímpio, o filho de Manoel, só pensa no que ouviu: "Meu pai sofreu muito. Era uma criança".
Monges de Pinheirinho: como movimento messiânico no Rio Grande do Sul acabou em massacre esquecido
Escrito em 02/06/2026
A única imagem atribuída a Monge Chico anos depois foi identificada como do mítico monge João Maria, curandeiro que viveu entre Paraná e Santa Catarina, entre 1886 e 1905, anos depois do conflito no Taquari Dominío Público Dono de um hotel na vila de Encantado (RS), em maio de 1902 João Ferri se recuperava de ferimentos sofridos em um ataque que lhe custara um naco da orelha direita e cortes pelo corpo. Ele havia perdido dois amigos e outros três estavam feridos, um deles gravemente. Ainda com dores, recebeu um embrulho com um "presente" e um bilhete: "Para substituir a que perdeste". A mutilação vinha de um homem abatido a tiros de fuzil pela Brigada Militar no dia anterior, quase no final da Guerra de Pinheirinho, uma represália que virou massacre de pelo menos 28 pessoas no Vale do Alto Taquari, no sopé da Serra Gaúcha. A brincadeira macabra se tornou lendária na comunidade e ilustra um confronto alimentado por medo, preconceito religioso e impiedosa reação policial. Apesar de descendentes dos envolvidos de ambos os lados ainda viverem na região, o episódio caiu no esquecimento após 124 anos, citado quase só em trabalhos historiográficos. Grande parte do registro nasceu do livro Os Monges de Pinheirinho, de 1975, do historiador local Gino Ferri (1922-2016). A partir de meados dos anos 1960 ele entrevistou alguns dos envelhecidos participantes. Quase todos entre os vencedores, como o autor lamentaria décadas depois da publicação. "Naquela época eu sabia muito pouco sobre o outro lado", comentou Ferri no início dos anos 2000. Tudo começou com a presença incômoda e provocativa de miseráveis que abriram roçados e ergueram palhoças em uma terra sem dono às margens do rio Taquari, hoje dentro dos limites de Roca Sales. O grupo contava com uns 60 desgarrados, incluídas mulheres e crianças. Eles praticavam rezas e curandeirismo — recorrente em comunidades sem acesso mínimo a médicos e remédios. No ápice, reuniram duas centenas de pessoas das redondezas, muitas delas agricultores, além de viajantes de passagem. Monge furioso O líder era um certo João Francisco Maria de Jesus, um agressivo curandeiro andarilho que pregava uma guerra santa e profetizava um futuro menos miserável aos que o cercavam. Ele falava até na ressurreição dos que defenderiam sua visão messiânica do cristianismo. Como em outros episódios da época, foi morto à espera de um apoio que nunca chegou. Acabou em uma cova rasa à beira de uma estrada perto de onde hoje fica um campo de futebol na cidade de Muçum. Por capricho vingativo da polícia, foi jogado de costas e com os tornozelos e pés de fora. Para que seus restos expostos não fossem alvo de animais carniceiros, foram cobertos com paus e pedras por sete seguidores aprisionados que serviram de coveiros. "Assim não há de voltar nunca mais", diziam os curiosos. De origem desconhecida e sem registros fotográficos confirmados, ele teria razões para odiar autoridades em geral e colonos em particular. Nove anos antes havia escapado de um linchamento em um acampamento em Colônia Bastos (hoje parte de Marques de Souza), no Rio Forqueta. Cinco foram mortos na noite de Ano Novo de 1893. Na fuga de canoa, foi conduzido pelo mateiro João Enéias, que vivia em uma cabana à beira do Taquari, a 60 quilômetros de distância. Atento, ali por 1900 Enéias ajudaria o monge a se instalar em Pinheirinho, onde este também passaria a ser chamado de São João Maria — um nome genérico, adotado por personagens que apareceram em diferentes épocas, na Revolta dos Muckers (1873-1874), em Canudos (1896-1897), na Guerra do Contestado (1912-1916) e no Massacre dos Barbudos, em Soledade (1938). Os observadores mais atentos relataram que Enéias ajudava em milagres de pescador. Chamado de apóstolo, pegava bagres e pintados de antemão e os amarrava em uma linhada oculta submersa. De acordo com o que Gino Ferri ouviu de testemunhas, depois o pregador reunia os fiéis e anunciava que Deus mandaria uma farta pescaria. Daí puxava a linha colocada. O amigo mateiro também fingiria transes para ser curado com uma reza ou benzedura. Era um jeito fácil de arrecadar donativos, já que a vida era precária. Já apelidados de monges, os discípulos de vez quando cometiam pequenos furtos de ferramentas e mantimentos. Eles eram caboclos e ex-escravizados que antes de serem expulsos das terras vendidas aos colonos se dedicavam à colheita de erva-mate nas bordas do Sertão dos Bugres, como era chamada a Serra Gaúcha. Historiador local, Gino Ferri (1922-2016) resgatou a história e depois reviu sua abordagem Arquivo pessoal O mais provável é que João Maria fosse um destes desalojados, principalmente após as matanças e perseguições da Revolução Federalista (1893-1895). O episódio atraiu a professora de história do ensino médio Mircele Giaretta em sua graduação na Universidade do Alto Taquari (Univates), em Lajeado, distante 115 quilômetros de Porto Alegre. Para ela, o conflito desenrolado no caminho que pega todos os dias pela RS-129, entre sua casa, em Muçum, e o trabalho, em Encantado, foi rascunhado em boa parte pela Lei de Terras de 1850, que dificultou a legalização fundiária por parte de posseiros tradicionais. O resultado abriu caminho para consolidação de latifúndios ou de projetos de colonização. Ela completa: "O governo acabou contribuindo para que essas populações não tivessem para onde ir". O confronto Diante dos relatos conflitantes e da falta de policiais em Encantado, onde viviam cerca de 300 famílias, dois subdelegados, um sargento e mais nove voluntários foram tirar satisfações dos suspeitos, seguindo as ordens do subchefe regional da polícia, coronel Ramiro de Oliveira. Com a chegada do inverno e as cheias do rio, corria o boato que mercados e pequenos comércios em áreas afastadas seriam saqueados — o que nunca ocorreu. O que seria um alerta virou luta desesperada. Na manhã de 4 de maio, a comitiva cruzou o rio até o acampamento. Monge Chico saiu de sua barraca com uma garrucha de dois canos e um facão na cintura para encarar o subdelegado Napoleão Maiolli, de 37 anos, um veterano duro perseguido durante a Federalista. Após uma troca áspera de palavras, foi dada voz de prisão. Maiolli pensava que o local estava quase vazio, pois fora informado que o líder mandara buscar armas para iniciar a sua reduzida de guerra santa — o milagreiro charlatão também queria evitar um ataque como o vivenciado em Linha Bastos. Antes de apontar a garrucha para Maiolli, Monge Chico rogou: "De hoje em diante queremos matar e roubar. E vamos começar já. Tu serás o primeiro". O tiro só não abriu o peito do subdelegado por ação do sargento Vispo, que desviou a arma com um golpe de sabre. Do mato saíram dúzias de asseclas armados de porretes, adagas e algumas espingardas. "Matai os demônios", gritou o monge (os sobreviventes diziam que ele falava assim mesmo). Como algumas armas da patrulha falharam, em vez de conter a multidão foi criada uma batalha na proporção de 3 contra 1. O resultado foram dois colonos mortos (o caixeiro viajante Eduardo Satler, de 30 anos, e o fabricante de bebidas João Lucca, de 28 anos), assim como dois monges, além de feridos de ambos os lados. Napoleão Maiolli, subdelegado, escapou ileso: alvo do primeiro tiro Reprodução/Arquivo pessoal Um dos atingidos foi o irmão de João Lucca, o subdelegado Guerino. Cercado por três e esfaqueado, foi dado como morto. Caído na mata, de tão ensanguentado seu pretenso matador errou o golpe final sem saber. A lâmina da adaga foi barrada por um botão de ouro no colarinho. Guerino só voltaria para casa na noite seguinte, após se arrastar em busca de ajuda. Já o ferreiro Pedro Mottin, de 23 anos, levou um golpe de facão no rosto que lhe rendeu uma cicatriz da orelha ao queixo. Pelo resto da vida ele fez daquela data seu feriado pessoal, afirmando que havia renascido. Reação e perseguição Com os sobreviventes e os corpos dos abatidos retirados no dia seguinte, as autoridades em Porto Alegre foram alertadas. O presidente do Estado (como os governadores eram chamados na época), Borges de Medeiros (1863–1961), caudilho que ficou 25 anos no poder (1898-1908 e 1913-1928), enviou um barco com 100 policiais sob o comando do major Juvêncio Maximiliano Lemos. Conforme relatório apresentado por Medeiros à assembleia provincial, a missão era simples: "Liquidar com os fanáticos e fazer voltar a paz à região". A fé de Monge Chico foi sua sentença. Em vez de fugir, se instalou em uma gruta elevada a poucos quilômetros dali, esperando ajuda e abastecido de comida. Com ele estavam cerca de 70 pessoas, mas as armas e munições eram poucas. A seu favor, o terreno, o frio e a lama criada pelas chuvas. O ataque final veio em 22 de maio, após dias de cerco. Com o tempo firme, a polícia saiu de sua base, a uns 500 metros de distância da gruta. Alguns fugiram, mas um núcleo mais aguerrido ficou ao lado do chefe. Integrantes da patrulha atacados pelos monges; entre eles os feridos João Ferri, primeiro à esquerda, sentado, à frente de Pedro Mottim, em pé Reprodução/Os Monges de Pinheirinho Dos 100 brigadianos, 60 subiram o morro atirando divididos em duas colunas. Ao encontrarem uma cabana, a tropa do tenente Juvenal Joaquim Teixeira abriu fogo contra as paredes finas de madeira. Sete do bando saíram sem resistência e aparentando desnutrição (na imagem). No interior, João Francisco Maria de Jesus foi encontrado morto em uma cama ao lado de outros corpos. Foram enterrados 22 monges na mata, incluindo a última vítima, Cananea, alvejada pelas costas. Ela era a esposa de João Enéias, que desaparecera. Sob a desculpa de buscar reforços, ele fugiu para a localidade de Arvorezinha, distante 50 quilômetros, onde se instalaria. Por ironia, anos depois o hoteleiro ferido João Ferri muda para o mesmo lugar, o que cria uma aberta inimizade até a morte do antigo mateiro. Quatro outros fugitivos do bando foram localizados nas estradas da região e abatidos em diferentes circunstâncias. Pelo menos dez adultos e crianças ficaram escondidos nas matas por dias, passando privações enquanto esperavam a retirada das tropas. Entre eles estava Manuel Lisboa, de apenas 12 anos. Filho de Luiz Lisboa, que trabalhava entregando roupas para um caixeiro, ele frequentava o acampamento com o pai, que era chamado de apóstolo. Manuel e o pai tiveram que comer o couro de arreios do cavalo cozido para enganar a fome naqueles dias. Tudo para preservar a montaria, um instrumento de trabalho essencial. Sete dos integrantes do bando aprisionados pela polícia no ataque final: enterraram o líder em cova rasa e com os pés para fora Domínio Público Já os soldados foram elogiados pelo comando na volta à capital. Nos registros oficiais consta que fizeram 1.560 disparos de fuzil. Para cada revoltoso eliminado foram dados 70 tiros. O que dá uma dimensão da reação. Já os sobreviventes aos poucos se espalharam discretamente pela região, deixando o passado para trás. Adulto, Manuel Lisboa se instalou em Encantado após andanças. Ele viveu na pobreza e transmitiu sua história aos filhos que teve em idade avançada. Um deles, Olímpio, de 74 anos, guarda a memória da penúria relatada pelo pai. Ele é o único entre os descendentes que fala abertamente sobre o massacre. Olímpio Lisboa, 74 anos, único descendente a falar André Vargas Lei de Terras e preconceitos Para os colonizadores, a Guerra de Pinheirinho se mostrou um ato de resistência das forças da ordem. Mas não é o que pensa o professor Luís Fernando Laroque, também da Univates. Para ele, a religião teve um peso enorme, mas pouco percebido. Em uma sociedade extremamente católica, o messianismo popular surgido com o fim do Império era visto como uma ameaça à transição de poder, já que a figura ungida de D. Pedro 2º havia saído de cena, criando um vazio no imaginário social. Algo também visto em outros movimentos, como Canudos. "Me parece que esse foi um forte elemento, pois eles [os monges] não se enquadravam", reflete. Na dissertação Monges de Pinheirinho – A outra face (2010), Maria Lisane Machado ofereceu uma explicação direta e essencial, baseada em parte nos relatos de sua avó. "Não eram perigosos, eles na verdade eram falsários, que se diziam poderosos curadores de doenças que dificilmente seriam curadas, dada a dificuldade da medicina na época". Olímpio, o filho de Manoel, só pensa no que ouviu: "Meu pai sofreu muito. Era uma criança".

