A jovem que presenciou o pai matar a mãe e agora vê o tio como suspeito de outro feminicídio na família Arquivo Pessoal Alerta: este texto tem conteúdo sensível. Quando Micheli Barbosa soube, no fim de junho, que seu tio Valdecir Inácio Barbosa havia sido preso por suspeita de matar a esposa, ela sentiu que repetia a tragédia de quatro anos antes. Em 2022, Micheli perdeu a mãe, Teresinha, assassinada. O autor do crime foi seu pai, Valdir Barbosa, irmão de Valdecir. "Veio tudo de novo. Eu disse para a minha avó: 'Parece que estão me ligando para dizer que minha mãe morreu de novo'", afirma. O que mais surpreendeu Micheli, esteticista de 25 anos, foi lembrar das conversas que teve com o tio na época da morte da sua mãe. "Quando aconteceram as coisas, esse tio meu, Valdeci, disse: 'Meu Deus, o que se passava na cabeça do Valdir, o que que levou ele a fazer isso? Que loucura. Se não dá mais, separa. Se não querem, né, se acertem numa boa'", relata. Moradora de Alecrim, cidade gaúcha de cerca de 5,5 mil habitantes próxima à fronteira com a Argentina, Micheli cresceu em meio à violência doméstica. Ela conta que o pai era ciumento e controlador e que as agressões contra a mãe faziam parte da rotina da família. "Eu lembro do meu pai chegando bêbado em casa, agredindo minha mãe com coronhada [de arma de fogo], batendo muito nela. Meu irmãozinho mamando no peito e corria sangue por cima dele, nos paninhos brancos", se recorda. Ao longo dos anos, Teresinha tentou se separar diversas vezes. Registrou ocorrências policiais, chegou a fugir para outras cidades e, mais tarde, foi morar com a filha. Mas, segundo Micheli, nenhuma medida foi suficiente para afastar Valdir. Em 2021, depois de deixar a prisão onde cumpriu pena por outro crime, Valdir passou a frequentar os lugares onde mãe e filha estavam. "A gente ficava com muito medo. Minha mãe tinha começado a fazer ginástica, estava voltando a viver. E aí ele começou a seguir a gente." No início de janeiro de 2022, Valdir apareceu armado na casa de Micheli, apontou um revólver para a cabeça dela e levou Teresinha à força de lá. Micheli correu até a casa de uma vizinha e ligou para o pai. Ele pediu para que ela não chamasse a polícia, que levaria a ex-mulher de volta dentro de uma hora, e que só queria que ela assinasse uns papéis. "Só que eu não acreditei nisso. Então, eu liguei de novo e pedi para falar com ela. E a única coisa que ela dizia pra mim: 'Cuida dos teus irmãos pra mim'. Ele pegou o telefone e desligou", lembra a esteticista. Micheli ligou para a polícia, que iniciou buscas na região. Valdir e Teresinha foram localizados em uma residência na cidade vizinha. Policiais cercaram o imóvel e tentaram negociar a rendição de Valdir. Segundo Micheli, que acompanhava a operação à distância, os agentes ouviram disparos vindos de dentro da casa. "Quando os policiais tentaram entrar, ele deu um tiro na porta. Depois veio o outro tiro. Naquela hora eu pensei: acabou." Quando os policiais conseguiram invadir o local, encontraram Teresinha baleada. Valdir também estava morto. Segundo Micheli, a mãe chegou a ser socorrida, mas não resistiu.a "Foi a pior noite da minha vida, porque eu não pude fazer nada", afirma. "Até hoje, a gente não consegue se reerguer direito." Micheli e a mãe, Teresinha, que foi assassinada em janeiro de 2022 Arquivo Pessoal 'Eu virei a mulher dele' Mas a violência relatada por Micheli não se limitava às agressões que presenciava contra a mãe. Ela afirma que também foi vítima de abusos cometidos pelo pai durante a infância. Segundo seu relato, os episódios começaram após uma das tentativas de separação de Teresinha. Na época, a mãe havia fugido com os filhos para a casa de parentes em uma cidade vizinha. Micheli diz que o pai conseguiu reaver a guarda das crianças e levá-las de volta para casa. "Ali, ele começou a abusar de mim. No primeiro dia que nos trouxe de volta, começou a passar as mãos em mim. Depois, eu virei mulher dele", relata. Agora no g1 Micheli diz que viveu anos sem contar à mãe o que estava acontecendo. "Eu tinha medo. Ele falava que ia matar nós duas. Dizia que ia nos picar em pedacinhos. Eu não podia abrir a boca de nada." Ela afirma que só conseguiu revelar os abusos aos 14 anos, depois de um episódio em que o pai tentou atacá-la com uma faca. Segundo Micheli, as duas procuraram a polícia, registraram a denúncia e realizaram exames. Mas, dias antes da audiência, o pai teria voltado a ameaçá-las. "Ele disse que eu tinha que negar tudo. Que eu tinha que dizer que inventei a história." No dia do depoimento, os três ficaram frente a frente. Micheli conta que, com muito medo, acabou negando. "Eu não sabia o que fazer." Hoje, ela acredita que o medo foi determinante para que a violência continuasse por mais anos dentro de casa. "Enquanto tu estás naquele ciclo, tu não enxergas claramente as coisas. Tu vives com medo o tempo todo." Estigma Tatiana foi morta por Valdecir em junho Arquivo Pessoal A tragédia familiar marcou profundamente Micheli. Com a prisão de Valdecir, ela diz que as lembranças sobre a mãe voltaram à tona. E o que mais a surpreende é que nunca imaginou ver o tio suspeito em um caso semelhante ao do irmão dele. Segundo Micheli, Valdecir costumava frequentar torneios de bocha na região acompanhado da esposa — uma mulher muito reservada. "Até pouco tempo atrás, eu ia assistir a jogos com eles. Ela respondia o que perguntavam e nada mais." Micheli diz que não sabe o que acontecia dentro da casa do casal. Mas afirma que a própria história a ensinou que a violência doméstica muitas vezes permanece invisível para quem está de fora. "Só quem vive entre quatro paredes sabe o que uma pessoa é capaz de fazer." A reportagem tentou localizar a defesa de Valdecir Inácio Barbosa por meio do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e da Defensoria Pública do Estado. A defensoria disse, por meio de sua assessoria de comunicação, que atua pelo réu, mas irá se manifestar apenas nos autos do processo. O TJ-RS e a polícia local não responderam aos pedidos de mais informação sobre o caso. A lavradora Tatiane Cristina Kusniewski deixou duas filhas, uma de 21 anos e outra de 10. Além da dor causada pelos dois casos, Micheli enfrenta hoje o peso do estigma em uma cidade pequena. "A gente tenta fazer uma coisa, tenta fazer outra, mas não vai para frente. Aqui a cidade é tão pequena que a gente acaba sendo manchada junto por uma coisa que a gente nem tem culpa do que aconteceu."
'Minha mãe morreu de novo': a jovem que presenciou o pai matar a mãe e agora vê o tio como suspeito de outro feminicídio na família
Escrito em 24/09/2026
A jovem que presenciou o pai matar a mãe e agora vê o tio como suspeito de outro feminicídio na família Arquivo Pessoal Alerta: este texto tem conteúdo sensível. Quando Micheli Barbosa soube, no fim de junho, que seu tio Valdecir Inácio Barbosa havia sido preso por suspeita de matar a esposa, ela sentiu que repetia a tragédia de quatro anos antes. Em 2022, Micheli perdeu a mãe, Teresinha, assassinada. O autor do crime foi seu pai, Valdir Barbosa, irmão de Valdecir. "Veio tudo de novo. Eu disse para a minha avó: 'Parece que estão me ligando para dizer que minha mãe morreu de novo'", afirma. O que mais surpreendeu Micheli, esteticista de 25 anos, foi lembrar das conversas que teve com o tio na época da morte da sua mãe. "Quando aconteceram as coisas, esse tio meu, Valdeci, disse: 'Meu Deus, o que se passava na cabeça do Valdir, o que que levou ele a fazer isso? Que loucura. Se não dá mais, separa. Se não querem, né, se acertem numa boa'", relata. Moradora de Alecrim, cidade gaúcha de cerca de 5,5 mil habitantes próxima à fronteira com a Argentina, Micheli cresceu em meio à violência doméstica. Ela conta que o pai era ciumento e controlador e que as agressões contra a mãe faziam parte da rotina da família. "Eu lembro do meu pai chegando bêbado em casa, agredindo minha mãe com coronhada [de arma de fogo], batendo muito nela. Meu irmãozinho mamando no peito e corria sangue por cima dele, nos paninhos brancos", se recorda. Ao longo dos anos, Teresinha tentou se separar diversas vezes. Registrou ocorrências policiais, chegou a fugir para outras cidades e, mais tarde, foi morar com a filha. Mas, segundo Micheli, nenhuma medida foi suficiente para afastar Valdir. Em 2021, depois de deixar a prisão onde cumpriu pena por outro crime, Valdir passou a frequentar os lugares onde mãe e filha estavam. "A gente ficava com muito medo. Minha mãe tinha começado a fazer ginástica, estava voltando a viver. E aí ele começou a seguir a gente." No início de janeiro de 2022, Valdir apareceu armado na casa de Micheli, apontou um revólver para a cabeça dela e levou Teresinha à força de lá. Micheli correu até a casa de uma vizinha e ligou para o pai. Ele pediu para que ela não chamasse a polícia, que levaria a ex-mulher de volta dentro de uma hora, e que só queria que ela assinasse uns papéis. "Só que eu não acreditei nisso. Então, eu liguei de novo e pedi para falar com ela. E a única coisa que ela dizia pra mim: 'Cuida dos teus irmãos pra mim'. Ele pegou o telefone e desligou", lembra a esteticista. Micheli ligou para a polícia, que iniciou buscas na região. Valdir e Teresinha foram localizados em uma residência na cidade vizinha. Policiais cercaram o imóvel e tentaram negociar a rendição de Valdir. Segundo Micheli, que acompanhava a operação à distância, os agentes ouviram disparos vindos de dentro da casa. "Quando os policiais tentaram entrar, ele deu um tiro na porta. Depois veio o outro tiro. Naquela hora eu pensei: acabou." Quando os policiais conseguiram invadir o local, encontraram Teresinha baleada. Valdir também estava morto. Segundo Micheli, a mãe chegou a ser socorrida, mas não resistiu.a "Foi a pior noite da minha vida, porque eu não pude fazer nada", afirma. "Até hoje, a gente não consegue se reerguer direito." Micheli e a mãe, Teresinha, que foi assassinada em janeiro de 2022 Arquivo Pessoal 'Eu virei a mulher dele' Mas a violência relatada por Micheli não se limitava às agressões que presenciava contra a mãe. Ela afirma que também foi vítima de abusos cometidos pelo pai durante a infância. Segundo seu relato, os episódios começaram após uma das tentativas de separação de Teresinha. Na época, a mãe havia fugido com os filhos para a casa de parentes em uma cidade vizinha. Micheli diz que o pai conseguiu reaver a guarda das crianças e levá-las de volta para casa. "Ali, ele começou a abusar de mim. No primeiro dia que nos trouxe de volta, começou a passar as mãos em mim. Depois, eu virei mulher dele", relata. Agora no g1 Micheli diz que viveu anos sem contar à mãe o que estava acontecendo. "Eu tinha medo. Ele falava que ia matar nós duas. Dizia que ia nos picar em pedacinhos. Eu não podia abrir a boca de nada." Ela afirma que só conseguiu revelar os abusos aos 14 anos, depois de um episódio em que o pai tentou atacá-la com uma faca. Segundo Micheli, as duas procuraram a polícia, registraram a denúncia e realizaram exames. Mas, dias antes da audiência, o pai teria voltado a ameaçá-las. "Ele disse que eu tinha que negar tudo. Que eu tinha que dizer que inventei a história." No dia do depoimento, os três ficaram frente a frente. Micheli conta que, com muito medo, acabou negando. "Eu não sabia o que fazer." Hoje, ela acredita que o medo foi determinante para que a violência continuasse por mais anos dentro de casa. "Enquanto tu estás naquele ciclo, tu não enxergas claramente as coisas. Tu vives com medo o tempo todo." Estigma Tatiana foi morta por Valdecir em junho Arquivo Pessoal A tragédia familiar marcou profundamente Micheli. Com a prisão de Valdecir, ela diz que as lembranças sobre a mãe voltaram à tona. E o que mais a surpreende é que nunca imaginou ver o tio suspeito em um caso semelhante ao do irmão dele. Segundo Micheli, Valdecir costumava frequentar torneios de bocha na região acompanhado da esposa — uma mulher muito reservada. "Até pouco tempo atrás, eu ia assistir a jogos com eles. Ela respondia o que perguntavam e nada mais." Micheli diz que não sabe o que acontecia dentro da casa do casal. Mas afirma que a própria história a ensinou que a violência doméstica muitas vezes permanece invisível para quem está de fora. "Só quem vive entre quatro paredes sabe o que uma pessoa é capaz de fazer." A reportagem tentou localizar a defesa de Valdecir Inácio Barbosa por meio do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e da Defensoria Pública do Estado. A defensoria disse, por meio de sua assessoria de comunicação, que atua pelo réu, mas irá se manifestar apenas nos autos do processo. O TJ-RS e a polícia local não responderam aos pedidos de mais informação sobre o caso. A lavradora Tatiane Cristina Kusniewski deixou duas filhas, uma de 21 anos e outra de 10. Além da dor causada pelos dois casos, Micheli enfrenta hoje o peso do estigma em uma cidade pequena. "A gente tenta fazer uma coisa, tenta fazer outra, mas não vai para frente. Aqui a cidade é tão pequena que a gente acaba sendo manchada junto por uma coisa que a gente nem tem culpa do que aconteceu."